André Penteado nasceu no Brasil no início dos anos 1970 em uma família de classe média. Durante o tempo em que ele viveu com seus pais, sempre tiveram uma ou duas empregadas domésticas trabalhando na casa. O mesmo acontecia com seus amigos, como havia sido para seus pais. Naqueles anos, tarefas domésticas nunca faziam parte de sua rotina e eram algo com que ele não tinha que se preocupar. A casa funcionava como um hotel onde, como num passe de mágica, os quartos eram limpos, as roupas lavadas e as refeições preparadas. Foi somente mais velho que ele compreendeu o impacto que esta situação tinha sobre o modo como as diferentes classes sociais percebiam a realidade. As classes médias e altas brancas do Brasil sempre compreenderam como seu direito natural viver com um nível extremo de conforto.

A relação que se desenvolve entre a empregada doméstica e seus empregadores é a mais íntima e complexa das relações entre ricos e pobres no Brasil. As domésticas, muitas vezes vivendo na casa de seus empregadores, têm uma visão quase completa de todos os confortos de um mundo ao qual não pertencem, a bens que desejam, mas não podem comprar. Ao mesmo tempo, dado o caráter aberto e expansivo dos brasileiros, as empregadas domésticas e os membros das famílias para as quais trabalham compartilham, muitas vezes, conversas íntimas e segredos. Em alguns casos, depois de um tempo, elas são consideradas como "parte da família". Como estas casas não funcionariam sem suas presenças, elas se tornam parte essencial da estrutura da vida familiar. Esta relação é composta por uma complexa mistura entre relação patrão-empregado e afeto familiar.

A origem dessa relação pode ser observada no convívio, existente no século XIX, entre os ricos e seus escravos que trabalhavam em suas casas. O fim da escravidão, em 1888, não veio acompanhado de nenhum plano para integrar os ex-escravos numa sociedade capitalista baseada no trabalho remunerado. Enquanto a maioria dos trabalhos pagos eram oferecidos aos europeus que imigravam para o Brasil naquela época, muitas das mulheres negras tinham como única possibilidade a de continuar trabalhando como empregadas domésticas. Essa estrutura, presente no Brasil há séculos, está agora sendo estremecida pelo recente desenvolvimento econômico e pela criação de novas possibilidades de trabalho para as classes pobres. De repente, é cada vez mais difícil para as classes altas encontrar uma "boa" empregada doméstica, ou mesmo alguma empregada. De tão “relevante”, este "problema" se tornou objeto de debate em programas de TV e em matérias de revistas.

Acreditando que esse tema diz muito sobre as complexidades da sociedade brasileira, sua desigualdade e o tipo de questões que o país enfrenta neste momento de mudança, André Penteado decidiu fotografar e realizar uma série de retratos de empregadas domésticas em seu ambiente de trabalho (casas de classe média alta e alta na cidade de São Paulo). Para acentuar o contraste entre estas mulheres e seus locais de trabalho, ele optou por fotografá-las com as roupas que usam para realizar suas atividades. Visualmente, André as fotografou utilizando uma estratégia visual geralmente destinada aos retratos feitos de pessoas ricas: foto colorida, câmera colocada abaixo da pessoa fotografada e fundo desfocado. Estes retratos são impressos em tamanho natural, o que força os observadores a serem confrontados com a presença destas mulheres.

Para o público brasileiro, o contraste entre essas trabalhadoras e os ambientes onde estão é evidente e não há dúvida de que elas são domésticas. Porém, isso não é óbvio imediatamente para um público do primeiro mundo, para quem elas podem somente ser mulheres fazendo faxina nas suas casas. A leitura de imagens é certamente cultural.

Juntamente com a série de retratos, o artista produziu também uma série de fotografias de objetos que fazem parte do trabalho das domésticas, e agora começam a mudar de mãos e outra série de vistas de São Paulo, feitas das janelas das residências visitadas para o projeto.

O projeto Domésticas inclui também um vídeo criado a partir de imagens – encontradas no YouTube – de programas de TV brasileiros, tais como: um concurso de beleza para empregadas domésticas, um game show para encontrar a melhor empregada do país, matérias de telejornais que tratam dos direitos da classe e das dificuldades em se encontrar empregadas. Para enfatizar o que é dito no vídeo, a imagem foi desfocada e sua velocidade reduzida em 50%, criando assim um efeito que é, ao mesmo tempo, cômico e desconfortável.