Depois do suicídio de seu pai em 2007, André Penteado participou, por cerca de um ano, em Londres – onde vivia na época – das reuniões de um grupo de apoio para pessoas que perderam um familiar ou amigo por suicídio. Ouvir os participantes compartilharem suas experiências ajudou-o a colocar em perspectiva o que havia acontecido em sua vida e foi parte importante de seu processo de luto.

Se no projeto O Suicídio de meu pai, André expressou sua resposta imediata à morte de seu pai, agora ele decidiu criar um projeto para investigar o impacto em longo prazo causado por um suicídio nos sobreviventes (forma como são chamados os que passam pelo suicídio de uma pessoa amada). Ele decidiu então convidar algumas das pessoas que conheceu no grupo de apoio para juntos criarem o projeto Não Estou Sozinho, que é composto por três séries de fotografias e um vídeo em dois canais.

A primeira série de fotografias é chamada Nós e compreende um grupo retratos em que os personagens encaram a câmera diretamente. Seu objetivo é discutir a vergonha relacionada com um suicídio e o fato deste assunto ainda ser tabu. Estas fotografias são impressas contendo nelas o nome de cada retratado.

A segunda série é chamada Vazio e pretende representar a sensação que a morte súbita de uma pessoa amada deixa na vida dos sobreviventes. As imagens desta série foram criadas a partir do seguinte procedimento: primeiro os participantes foram convidados a escolher um lugar em sua casa para um retrato. Após este retrato ser tirado, eles saíam do quadro e uma fotografia da cena vazia foi feito. Estas fotografias são impressas contendo nelas a relação do participante do projeto com a pessoa que se suicidou.

A terceira série é chamada Memórias. Na criação desta série, pediu-se aos participantes que mostrassem ao artista o lugar onde guardavam o objeto mais importante que ainda possuíam e que pertencera à pessoa que se suicidara – aquele que os ligava emocionalmente à memória do falecido. Uma fotografia foi então tirada mostrando este lugar, mas não necessariamente o objeto, pois este, às vezes, estava escondido dentro de uma gaveta ou uma caixa. Estas fotografias são impressas contendo nelas o nome do objeto.

Para a criação do vídeo em dois canais Como você se sente? todos os participantes responderam à pergunta do título. De cada um deles, foi feita apenas uma tomada – mostrando durante todo o tempo, somente suas mãos – e suas respostas foram incluídas na totalidade na edição final do vídeo. Como acontece nas reuniões do grupo de apoio que deu origem ao projeto, não se deve interromper quando um colega está falando. Depois de gravar as respostas dos participantes, André filmou torneiras pingando em suas casas. As vozes e as mãos dos participantes vistos e ouvidos ao lado de uma série de torneiras pingando em ritmos diferentes aludem a diversos aspectos da perda por suicídio, como a ideia de desperdício de uma vida, as diferentes durações da vida, a tortura que é a depressão etc.