Em 18 de junho de 2011, logo após o meio-dia, meu amigo G. me mandou a seguinte mensagem:

“Oi A., eu e a K. vamos nos separar. Estou confuso e deprimido. Posso te ligar?”

Mais ou menos meia hora depois, eu respondi:


“Oi G., que notícia triste. Estou em um evento do grupo de apoio pra familiares de suicidas até às quatro e meia. Muita força! Te ligo daqui a pouco.”


Ele respondeu imediatamente:

“Obrigado, estou precisando mesmo, falamos mais tarde.”


Ao redor das sete da noite, liguei e conversamos durante meia hora. Ele contou que seu casamento estava muito desgastado e que sua mulher queria se divorciar. Afirmou que a culpa era toda dele e que não aguentava a ideia de viver separado das filhas. Para piorar a situação, estava endividado e brigando com os irmãos, que lhe haviam negado sua parte da herança do pai, com quem sempre teve um relacionamento difícil. Por fim, disse que há algum tempo se sentia suicida. Ele já havia procurado um psiquiatra e estava tomando antidepressivos. Tentei ajudá-lo da maneira que pude. Ao final da conversa, indiquei a ele um livro sobre perdas e luto, que havia lido quando meu pai morreu. Um pouco mais tarde, trocamos estas mensagens:

“Oi A., obrigado pela conversa. Como se chama mesmo o livro?”

“Grief Recovery Handbook”


“Obrigado.”


“De nada, você sabe que pode me ligar sempre que precisar.”

No dia seguinte, ao meio-dia, recebi uma ligação da polícia. G. havia desaparecido e eu fora, além da esposa, a última pessoa a falar com ele. O policial me disse para que não me preocupasse, pois estavam trabalhando no caso, e me pediu para que lhe contasse o que G. havia me dito.

Por volta das oito da noite, liguei para o celular de G., mas quem atendeu foi K., sua mulher. Ela me disse que o corpo de G. havia sido encontrado numa mata, perto de sua casa. Ele havia se enforcado.


No dia 27 de junho, peguei o trem da manhã para a cidade onde G. vivia. O velório acontecia num hotel, onde encontrei K., suas duas filhas, e toda a família dele. Disse a eles que não era sua culpa, que havia sido uma escolha de G.


Como a família de G. é de outro país, seu corpo seria levado para ser enterrado lá. No final, enquanto apertava a minha mão, um de seus irmãos me disse:

“Nós vamos levar G. de volta. De volta para casa.”

Depois, peguei o trem de volta para casa.