Para ver a Cabanagem
Magda Ricci

Introdução

O que é preciso para visualizar hoje a Cabanagem, revolução social avassaladora e ampla que explodiu na Amazônia brasileira e em suas fronteiras entre 1835 e 1840? Qual a importância de se compreender e enxergar povos tão diferentes, e em sua maior parte iletrados, que viviam no antigo Grão-Pará em um remoto século dezenove? Para muitos, esse passado parece perdido, pouco documentado e até sem sentido. Contudo, há significados desta guerra, tanto antigos quanto contemporâneos, que ainda estão vivos e são muito importantes.
Os cabanos eram assim chamados por serem, em sua maioria, pessoas pobres que moravam em cabanas e/ou porque usavam chapéus de aba chamados cabanas. Contudo, nem todos os que participaram do movimento eram pobres e simples: inicialmente, ele decorreu de intrigas políticas no seio da elite local, de maioria branca, com o objetivo maior de libertar o fazendeiro da região do Acará e líder político liberal Félix Clemente Malcher, preso desde 1834. Em 7 de janeiro de 1835, grupos armados liderados por agregados e aliados políticos de Malcher tomaram o poder em Belém do Pará, então a maior cidade no complexo do rio Amazonas e seus afluentes.

Naquele ano de 1834, os jornais paraenses travaram duras batalhas envolvendo o então presidente da província do Pará, Bernardo Lobo de Souza. O problema centrava-se numa pastoral do bispo do Pará, D. Romualdo Coelho, documento que se alinhava com as novas regras da Igreja romana, a qual condenava publicamente a Maçonaria, acusando-a de fomentar revoluções liberais e efetivar práticas diabólicas. Como Lobo de Souza era maçom, ele não publicou no jornal governamental a proclamação do bispo, dando origem a desconfianças sobre seu catolicismo e seu caráter político. Também estava acalorado nos jornais o debate sobre a nova lei nacional de no 16, de 12 de agosto de 1834, que criava a Assembleia Provincial e aumentava a autonomia política das províncias. Nesse contexto, ficava claro para a oposição – que tinha entre seus líderes o cônego João Batista Campos e seu aliado Felix Malcher – que Lobo de Souza era centralista e autoritário.

Buscando controlar o debate e conter os ataques, o presidente da província mandou fechar os jornais de oposição. Também afirmou publicamente que prenderia o cônego Batista Campos, que fugiu para um sítio no rio Acará que pertencia a Malcher. Em sua perseguição esta propriedade foi invadida e um oficial do governo morreu na luta. Acusado de intrigas políticas e de ser o mandante dessa morte, Malcher foi preso. Porém a invasão à sua propriedade foi feita sem um mandato e feria a constituição brasileira de 1824. Além disso, Batista Campos fugiu do local e acabou morrendo na fuga. A sua morte, o desrespeito às leis e a prisão tida como arbitrária de Malcher foram as causas imediatas da tomada cabana de Belém em janeiro de 1835.

No processo da primeira ocupação da capital do Pará, os grupos armados liderados pelos irmãos Antônio e Francisco Vinagre e por outros líderes do Acará e de Belém mataram Lobo de Souza, seu comandante de armas Joaquim José da Silva Santiago e mais algumas lideranças brancas portuguesas e maçônicas. Todas essas mortes estavam atreladas aos sucessivos governos que, desde a independência, se revezavam no poder sem deixar espaço aos brasileiros e paraenses natos, em especial os de origem branca e europeia, como Malcher, que, libertado, acaba por ser aclamado como o primeiro presidente cabano.

No início, o movimento cabano associava-se a uma disputa política pelo poder no seio da elite branca e parecia dar continuidade às disputas mal resolvidas desde a Independência. Naquela época, apesar da separação de Portugal, muitos portugueses ainda continuaram a ocupar posições políticas e econômicas privilegiadas. Da mesma forma, muitos oficiais e soldados portugueses mantiveram seus postos e soldos maiores do que os dos oficiais e soldados de origem brasileira. Também a maioria dos párocos e sacerdotes era estrangeira. Se a insatisfação dos paraenses e brasileiros natos era notória, a Cabanagem, entretanto, foi mais do que uma disputa para destronar os brancos portugueses residentes em Belém e colocar no poder os brancos e mestiços nacionais ou paraenses. Dessa briga política, elitista e “bairrista”, o movimento desembocou, já em fevereiro de 1835, por conta de conflitos internos, no assassinato de seu líder, Felix Clemente Malcher.

Disputas entre os líderes cabanos – em especial, sobre os rumos do movimento e na decisão do que fazer com os portugueses – levaram o movimento a se radicalizar e envolver outras pessoas. Com a morte de Malcher, Francisco Vinagre, seu comandante de armas, assumiu o governo. Depois de idas e vindas políticas e da chegada à Belém de tropas imperiais, os cabanos deixaram a capital paraense em junho de 1835, mas a luta não terminou com essa primeira desocupação, principalmente porque nenhum dos dois lados se desarmou.

Ainda em junho de 1835, Francisco Vinagre foi preso junto com outros chefes cabanos. Como resposta à sua prisão, seu irmão Antônio comandou a luta pela retomada de Belém e acabou morto. Mesmo assim os cabanos assumem o controle da cidade. Nesse cenário subiu ao poder o último e maior líder cabano, Eduardo Nogueira Angelim. Moço novo, migrante cearense e também agregado na fazenda de Malcher, Angelim viveu a fase mais radical do movimento em Belém, quando grupos de cabanos fugiram ao seu controle e, no conflito com as tropas oficiais, a cidade foi bombardeada, sitiada ao mesmo tempo em que foi tomada por uma epidemia de varíola.

Depois de ampla negociação entre Angelim e o líder das tropas oficiais – marechal d'Andréa – que teve o envolvimento do bispo, de padres e de comerciantes portugueses, ingleses e franceses estabelecidos na cidade, foi acordada a desocupação de Belém, o que ocorreu em maio de 1836. Após essa data, Angelim foi perseguido, preso e, quase no final de 1836, deportado para o Rio de Janeiro. Esses fatos, porém, não extinguiram o movimento cabano e, pelo contrário, representaram o início do momento mais interiorano e radical dessa luta.

Depois da desocupação de Belém, o movimento interiorizou-se e se transformou em uma guerra bem mais ampla, em que a maioria dos revolucionários lutava por terra e por direitos sociais e políticos. Todavia, cada “povo” ou população local percebia sua luta de forma diferente. No seu sentido mais radical, a Cabanagem significou um grito interiorano das muitas gentes dos sertões que desejavam que suas vidas fossem modificadas. Muitos saíram de suas cabanas carregando suas ferramentas de trabalho e conseguiram tomar as principais cidades e vilas amazônicas.

Desde a independência do Brasil e da formulação da Constituição de 1824, muitos povos amazônicos dos sertões, soldados recrutados à força para guerras e policiamento, indígenas forçados ao trabalho e escravos de origem africana acreditavam que suas vidas tinham que melhorar. Os cabanos, alcunhados por seus opositores de “malvados”, muitas vezes propuseram uma inversão da ordem social e o desprezo de antigas regras de governo e autoridade. As orelhas cortadas, os mergulhos e afogamentos, as invasões e tomadas de igrejas, as ladainhas, rezas e festividades cabanas assustavam aos antigos moradores, representantes da elite branca.

Entre os líderes cabanos que tomaram Belém em janeiro de 1835 e suas bases mais radicais e interioranas que lutaram sobretudo depois de maio de 1836 havia muitas diferenças, até mesmo linguísticas. O português só se tornou a língua falada hegemonicamente na região amazônica depois de 1850. Assim, muitos dos que viveram na época cabana nem ao menos falavam o português anunciado por seus líderes máximos, e tinham hábitos, culturas, desejos e sonhos de vida muito diversos.

Se a religião católica era a oficial do Estado Imperial no Brasil, se o Pará era governado pelo bispado de Belém formado hegemonicamente por clérigos brancos ou descendentes de europeus, no interior da então província tudo era diferente. Por ali, o catolicismo tomava outras cores e formas. A população interiorana vivia com seus mitos e saberes populares que, com a colonização, foram se fundindo e popularizando num catolicismo povoado por rezas, mandigas e magias. Na luta cabana essa diversidade apareceu.

Os cabanos entraram nas vilas, tomaram as igrejas e se apropriaram dos santos locais ou os destruíram. Ocupavam mais do que cidades, tomavam também as vestimentas e os cargos públicos das antigas autoridades brancas em uma clara afronta não apenas à ordem legal e estatal, mas também à ordem religiosa da cúpula católica. Apesar dessa “afronta”, os cabanos – em sua esmagadora maioria – continuavam se dizendo católicos. Foi preciso que o bispo do Pará e o arcebispo primaz do Brasil fizessem pastorais e rogassem publicamente para que os cabanos parassem de atear fogo em vilas e cidades e de matar pessoas no interior das igrejas e conventos. Ainda assim, muitos cabanos do interior foram duramente reprimidos e mortos. Todo esse processo teve um alto preço inclusive para os líderes máximos cabanos, especialmente para Eduardo Angelim, que também julgou e condenou à morte mais de uma dezena de seus companheiros mais radicais.

Os dados não são precisos, mas há indicações de que mais de 30 mil almas teriam morrido nas lutas sangrentas de 1835 a 1840. Esses números traduzem a vida instável de pessoas que habitavam a Amazônia desde os tempos coloniais – de uma Amazônia que desde 1616 viveu um processo de colonização e que, ainda nos anos em que ocorreu a Cabanagem, permanecia opaca à maioria dos colonizadores brancos de origem europeia.

Formação da população amazônica
A Amazônia carrega o estereótipo de terra quase sem homens, local onde impera o verde da floresta e uma vastidão de água doce, num cenário quase edênico – quando preservado. Nesse campo, em meio à floresta e aos rios, não há lugar para a história humana, para as cidades amazônicas com as suas casas, seus homens públicos e suas lutas cotidianas. É assim que muitos veem esta parte do globo. Variados povos indígenas e os múltiplos povos caboclos – que tradicionalmente habitam a floresta e zonas ribeirinhas – são comumente confundidos com as matas e os rios, como se fossem paisagens e não pessoas – ou, em outros momentos, transformando-se em garimpeiros, madeireiros e agropecuaristas, são vistos monoliticamente como invasores e vilões. São poucos que notam que são dois lados da mesma moeda. Sobra pouco espaço para as pessoas concretas.

Para aqueles que de mais perto vivem e pesquisam na região não é fácil contar – quase a contrapelo – outra história amazônica. A floresta, longe de ser virgem, foi adensada em vegetais e animais que caíram no gosto da população local indígena, que não era nada sedentária. A história da presença colonial na Amazônia foi feita através dos muitos contatos e por lutas de resistência. Caminhando do litoral para os rios interioranos, em geral os portugueses fizeram muitos projetos para a exploração dos recursos naturais locais, mas nem sempre foi possível tirar esses planos do papel diante de muitas dificuldades cotidianas. A maior delas talvez tenha sido a falta de braços destinados ao trabalho. Apesar dos muitos povos indígenas existentes na região, nem sempre foi fácil conseguir que eles se tornassem trabalhadores regulares e extensivos a todas as atividades consideradas essenciais à empresa colonial portuguesa e ao seu ritmo. Havia fugas de diversos tamanhos e formatos, resistências cotidianas, guerras declaradas ou não e doenças, como epidemias de cólera e varíola, que dizimavam a vida e as forças da maioria dos trabalhadores indígenas. Além disso, também existiam sérios conflitos entre os moradores e os religiosos, sobretudo os jesuítas, pelo controle da mão de obra indígena. Tudo isso gerou uma normatização do trabalho indígena complexa e cheia de revezes, que por vezes tornava difícil o uso desta mão de obra.

Os portugueses também trouxeram para a Amazônia outro importante morador-trabalhador: o negro africano, que lá chegou no final do século XVII e, sobretudo, em meados do século XVIII, para trabalhar como escravo e ajudar os colonos a se fixarem na terra. Contudo, esses africanos e seus descendentes fizeram muito mais do que trabalhar forçosamente e ajudar economicamente. A população de origem africana – embora pequena em comparação com a de outras partes do Brasil colonial e imperial – ficou concentrada em partes da Amazônia e em alguns setores chave da economia local. Nas cidades e vilas os afro-brasileiros serviram como escravos de ganho ou domésticos. No mundo rural, trabalharam tanto nas casas-grandes das fazendas como na criação de gado e nas plantações de cacau e de cana-de-açúcar. Estando ao lado dos senhores brancos e proprietários, muitos negros formaram famílias, fossem elas legalizadas ou não pelos homens ou pela igreja. Para além de formarem famílias com seus pares estes homens de origem africana também se uniram a mulheres indígenas e criaram laços com as brancas, ajudando a construir uma população local bastante misturada etnicamente e muito rica culturalmente.

No estudo de documentos coloniais e imperiais, o ir e vir constantes de colonos europeus e dos trabalhadores – especialmente dos de origem indígena – impressiona. Pode-se observar quão difícil era prender à terra pessoas tão livres em um território gigantesco. Além disso, agravava este cenário o fato de que na Amazônia, a maior parte das riquezas jazia na mata e nos rios. Com isso, os colonos de origem portuguesa precisavam respeitar a natureza, plantando o que lhes interessava, mas, sobretudo, mantendo a essência do verde local para poder retirar dele a sua maior riqueza: as chamadas “drogas do sertão”. Era da floresta que os colonizadores retiravam diferentes tipos de madeiras, castanhas, canela, cacau, óleos e extratos derivados das mais diversas espécies de vegetais, de peixes e dos ovos das tartarugas. Os colonizadores mapeavam as zonas de maior intensidade dessas “drogas”, ao mesmo tempo em que delineavam também as zonas insalubres onde habitavam espécies vegetais e animais tidos por “peçonhentos” e que podiam atrapalhar a coleta das “drogas”. Procuravam controlar esses locais, mas muitas vezes simplesmente fugiam deles. Os sertões ainda eram terras distantes e/ou locais de difícil acesso, muitos deles habitados por povos indígenas pouco amistosos aos olhos europeus. Outros locais tinham obstáculos naturais, como cachoeiras ou serras. Muitos eram formados por lagos, igapós, mangues ou matas onde abundavam febres ou doenças desconhecidas, que comumente resultavam em morte dos brancos e de maneira geral estavam associados a tabus, a seres imateriais ou a medos decorrentes de diversas crenças e mitos. Era para esses pontos distantes (ou temerosos) que seguiam os que fugiam da ordem colonial ou imperial, ou os que entravam em guerra contra ela, como os cabanos de 1835.

Por todos os sertões amazônicos havia mocambos de negros escravizados, mas também existiam mocambos com outros formatos: enquanto os moradores de origem africana fugiam da escravidão, os indígenas e mestiços fugiam do trabalho compulsório, e outros, por fim, eram soldados que se embrenhavam nas matas e rios escondendo-se do recrutamento forçado para as milícias e guerras, que foram muitas desde a Revolução Francesa de 1789 e da tomada paraense da Guiana Francesa, em 1809. A maioria dos fugitivos buscava nos sertões uma proteção imagética diante da colonização que os oprimia. Os colonos formais (e seus reveses, os “fugitivos-protegidos”) mantinham-se em intenso trânsito e acabavam dando a falsa ideia de falta de gente, imagem essa que se ressaltava diante da fala constante das autoridades sobre a carência de mão de obra.

Com essa mobilidade tanto legal quanto ilegal, os dados estatísticos são precários. Como não havia censos, os números vinham dos comerciantes, que desejavam o controle da produção e exportação, e dos militares, que recrutavam soldados e contavam as tropas e seus oficiais e famílias. Assim, os primeiros aumentavam os dados, e os segundos não conseguiam nunca o número correto de habitantes, porque havia uma eterna fuga populacional diante dos recrutadores.

Segundo os dados populacionais estimados pelos maiores comerciantes ingleses, em 1835, em todo o Império do Brasil, havia cerca de 4 milhões de habitantes. A população chamada de “civilizada” no Pará, formada pelos homens livres brancos ou mestiços que comandavam o comércio, representava pouco mais de quatro por cento desse número, chegando a cerca de 176 mil pessoas. Contudo, o Pará e o Maranhão juntos – e eles eram de longa data parceiros comerciais de exportação – possuíam uma receita de exportação muito próxima da de Pernambuco, então o segundo maior mercado exportador do Brasil Imperial. Além disso, em decorrência do conflito cabano, a renda do Pará foi subestimada e não correspondia a um número real. Mesmo assim, ela era mais do que o dobro da receita obtida no Rio de Janeiro, a capital do Império. Como isso era possível? Era graças ao trabalho dos indígenas e dos africanos, população que nem era contada nessa estatística.

No verbete “Pará”, no Dicionário geográfico, histórico e descritivo do Império do Brasil, o diretor da obra, J. P. Aillaud, assim chamava a atenção para a população da província do Pará no ano de 1840:
“Encerrava essa província [do Pará] em 1840 noventa e quatro freguesias dez das quais estavam sem vigário, tanto por falta de eclesiásticos, como por não haver dinheiro para o conserto das igrejas (...) No mesmo ano, procedendo-se a um alistamento, achou-se que o número de habitantes civilizados andava por 139 mil, e o dos índios bravos computava-se que seria pelo menos 100 mil”. (AILLAUD, J. P.. (dir.) Dicionário geográfico, histórico e descritivo do Império do Brasil, tomo 2º , Paris: Casa Publicadora de J. P. Aillaud editora, 1845, p. 108).

Se consideramos os dados levantados pelo dicionário mencionado e os compararmos aos números estimados no livro estatístico dos comerciantes britânicos, a população dita “civilizada” no Pará teria decrescido de 1835 para 1840 em cerca de 37 mil habitantes, o que indica que quase 12% da população teria morrido ou saído do Pará por conta dos conflitos da Cabanagem. Contudo, esse número é enganoso, pois não computava os escravos africanos e os habitantes fugitivos de mocambos. Também se depreende das informações retiradas do Dicionário de Aillaud que haveria no Pará, além dos 139 mil homens civilizados, outros cerca de 100 mil índios chamados de “bravos” ou não catequizados. De todos esses dados é possível perceber que havia no Pará de 1840 mais pessoas “incivilizadas” – escravizadas, fugidas e “bravas” – do que “civilizadas”. Certamente, a mortandade durante a cabanagem deve ter incidido em maior número sobre essa gente não computada nas estatísticas.

Anos mais tarde, em 1849, os primeiros dados oficiais depois da Cabanagem mostravam novos números. O presidente da província do Pará, Jerônimo Coelho, afirmava em seu relatório anual que, segundo uma estatística por ele requerida, o Pará teria cerca de 186 mil habitantes, entre livres e escravos. Aqui, o número é maior pela inclusão da população escravizada (pouco mais de 34 mil habitantes, ou 18,5%), mas continuaram sem ser computados os indígenas tidos por “bravos” e os fugitivos amocambados.

Concluindo esse rápido repasse numérico e populacional, a Cabanagem significou uma enorme tragédia demográfica para a região, seja qual forem os números.

Para além dos números: consequências e emanações da Cabanagem

O final da revolução de 1835 foi trágico para todo o povo amazônico e em especial ao povo interiorano. A maioria das mulheres ficou viúva ou passou a conviver com maridos distantes. Os homens livres e pobres que sobreviveram à revolução de 1835 e não estavam presos e/ou degredados, foram recrutados e mandados como milicianos ou como trabalhadores forçados para terras distantes dentro ou fora da Amazônia. Outros voltaram para o cativeiro e para a escravidão. A antiga ordem – de origem branca e colonial – se fortaleceu e sua já imensa desigualdade foi ampliada. Desta forma, as bandeiras de cidadania, de direitos e de ampliação ao acesso à terra foram deixadas para outro momento histórico, mas a memória da luta cabana perdurou e ainda existe nos nossos dias.

Encontrar essas gentes e as tradições cabanas – com todas as suas cores, línguas e culturas – não se resume à tarefa de localizá-las somente nos documentos históricos escritos, pictóricos ou arqueológicos desde os tempos pré-coloniais até os imperiais. Para enxergá-los é necessário perceber que elas existem para além deles e estão presentes em marcas mais visíveis ou sensíveis às nossas mãos e olhos contemporâneos.
As cidades amazônicas são um retrato constante do inacabado no passado e no presente. Chama a atenção em Belém que a maioria das construções humanas seja precária, tanto pelo material das edificações (comumente palha ou madeira) quanto pela falta de conservação rotineira. Tudo parece pronto para ser retomado pela natureza. As cores correntes locais são o amarelo da corrosão do ferro e o preto esverdeado do mofo ou do lodo. Aparentemente, tudo é desconcertante: até mesmo o concreto armado. O que seria uma construção monumental de concreto, o que seria obra para a eternidade humana, em geral torna-se uma desolação rotineira em ruínas precárias comumente presentes em cidades amazônicas como Belém. Basta visitar o pomposo e antigo Memorial da Cabanagem construído em concreto armado na Belém de 1985, por ocasião dos 150 anos da eclosão cabana. Hoje é um local de ruínas no meio de um viaduto, ponto de usuários de drogas e de alto fluxo de carros e ônibus.
A natureza parece "invadir" os feitos humanos nesta Amazônia de tradição cabana. É como se as cidades locais estivessem sempre recuperando parte de algo que lhe foi tomado numa velocidade acelerada e incomum para quem vem de outras partes do Brasil. Exemplo claro são os buracos no asfalto. Eles surgem de repente e parecem querer levar a cidade para o fundo das águas, junto aos seus seres encantados e lendários. Nasce um mundo molhado e provisório do presente e do passado que se formou na Amazônia equatorial brasileira.

Apesar dessa provisoriedade, mesmo nos lugares onde o mato, as enchentes sazonais e a chuva periodicamente apagam rastros, lavando e embolorando tudo, basta um olhar mais atento para encontrar cemitérios, ossadas, alicerces, pedaços de utensílios domésticos e tantos outros vestígios do passado cabano ainda persistente. Para cada documento escrito ou imagético há outras centenas de vestígios e objetos materiais e imateriais desse passado. Trata-se de uma cabanagem que ainda pode ser tocada e, mais ainda, pode ser sentida.
Num mundo em que tudo se transforma seria pedir em demasia que nossa memória fosse preservada intacta. Mesmo “imperfeita” para uma análise do ocorrido no passado cabano, essa memória reconstruída ainda hoje molda fascinantes ideias sobre o passado cabano. Essa memória ajuda a construir novas histórias amazônicas. Há inúmeros relatos do passado ainda vivos no presente. São histórias supostamente vividas no tempo real de 1835 ou 1840, mas sobretudo revividas e relidas em outros tempos e por outras gentes. Relatos de “mentiras” para algumas pessoas, formam narrativas essenciais para um passado histórico que sempre é recomposto de geração em geração.

Esses relatos traduzem-se em memórias sobre um tempo em que havia muita gente aperreada, muitos temerosos fugitivos dos cabanos. Havia gente de posses que, diante da morte frente aos cabanos revolucionários, escondia na terra suas riquezas, em especial ouro e prata. Assim proliferam narrativas sobre visagens que aparecem e contam aos vivos de hoje onde teriam enterrado seus tesouros. Mas também elas podem assombrar os homens com suas histórias de morte, de afogamentos coletivos e de envenenamentos. Até hoje pessoas dizem escutar gritos cabanos e seus sofrimentos trazidos pelas águas e ventos. Também existem relatos de cabanos que viraram assombrações e lendas amazônicas, como Matinta Pereira, que periodicamente aparece para os moradores pedindo fumo. Recorrem-se aos santos e santas católicos, mas até eles foram destruídos e mutilados pelo tempo na época cabana e na atual.

Para além das tradicionais narrativas fantásticas, há outros casos igualmente fascinantes, relatos que identificam certas características culturais hoje presentes no povo amazônico com as experiências de luta vivida pelos cabanos. Não é incomum ouvir pelas ruas de Belém ou Manaus que o povo paraense ou amazonense é aguerrido e lutador, resistente e combativo devido à herança cabana; que as mulheres são fortes e lutadoras, verdadeiras viúvas de uma cabanagem cotidiana. Também é comum que certos governantes acionem o passado cabano como plataforma de governo. Em 1985, o então governador do Pará Jader Barbalho se autodenominou governador do povo cabano no momento em que a Cabanagem comemorava seus 150 anos e o Brasil saía da ditadura militar. Em plena rodovia Belém-Brasília foi construído o Memorial da Cabanagem, citado anteriormente. Anos mais tarde, quando o prefeito de Belém Edmilson Rodrigues ganhou seu primeiro pleito em 1996, novamente se via que a Cabanagem ganhava as páginas dos jornais locais: era o governo cabano e a escola cabana. Foi construído um sambódromo nomeado Aldeia Cabana onde, entre outras atividades, ocorriam as reuniões do orçamento participativo da Prefeitura. As lutas por terras e maiores direitos sociais e políticos do passado foram novamente acionadas e relidas no presente.

Assim, locais do passado ganharam outros significados e os objetivos cabanos foram reeditados em versões de lutas sociais e políticas contemporâneas. Todavia, depois do fim do segundo governo de Rodrigues, em meio a disputas políticas e problemas sociais que se avolumaram no mundo local e nacional, o orçamento participativo, os monumentos e instituições em lembrança aos cabanos de 1835 foram renomeados e muitos deles esquecidos na Amazônia e em Belém.

As releituras e seus reveses demonstram que também persistiu e perdurou a exploração violenta e grandiosa dos povos amazônicos. O povo cabano do presente também aprendeu que contra sua insistente exploração, a mobilidade e a volatilidade podem ser uma arma. Contudo, é uma faca de dois gumes. Mais uma vez o trabalhador do presente tem dificuldade para se fixar: é um migrante constante. Neste processo, os rios e a matas tendem a marcar presença e até se “preservar”, mas o trabalho cotidiano e a manutenção das plantações, da infraestrutura das cidades e suas construções quase não perduram. A impermanência na região parece ser permanente. Até quando?